EGON SCHIELE.

Para Otoni, meu pai.

 

O papel tornado corpo. Nas curvilíneas veias, o sangue traçado em carvão, de um tanto viscoso, deslizando pelo ensaio do formato que ainda espera por contorno e preenchimento e finalização. Porque final ainda nada o é. Nem a assinatura encerra a obra. O traço solto e teimoso não se rende. E não se encerra na descendente cintura, no sobressalente intrincado tornozelo, a contorcida orelha, a genitália explodindo em cor, expressionista e crua. Sem retoque e disfarce. Assumidamente indecente e sã. O corpo, sensual e excessivo, transbordando pelas margens, rasurando os limites. Num abuso de ousadia. A que se exige para viver quando se quer, da vida, essa mesma, um mais que só esboço. Quando se tem, nas mãos, o mundo. Um que se desenha, que explode e grita, que se persegue nos tons acrílicos mas nunca toca o verde, o tom transparente de verde de olhos que mão nenhuma é capaz de reproduzir, sequer ensaiar. Não, aquele verde não.

 

O que lhe saltava das mãos brotara antes, muito. Nascido mesmo quando a vida irrompe pelo que se sabe de ser, do porquê de vir a viver. Crescido na infância de muitas durezas, de ricas descobertas e quais intensidades. As cores ainda pouco compreendidas mas já tão inquietas e incisivas. Anseios de cair no mundo que começava depois da curva que a estrada de ferro fazia à direita, logo ali, margeando o rio. Que era de pescarias mansas, que era de farra e de mergulhos gelados de aquecer aquele saborear de crescer. Dali já vinha a certeza de ir. Porque o protegido e seguro ficavam pouco quando o trem partia levando aqueles rostos que nunca mais voltariam mesmos. Os que tornavam não cabiam mais no conforto conhecido. E nem se doíam.

 

A distância de casa, ao mesmo tempo salto; dos abruptos; era também o deslumbre de um vôo. Um passo natural ainda que assustador. Era descer do trem, largando a fazenda de cercas largas que não cerceavam; nutriam. Deixar em algum lugar distante, a praça do coreto que o vira crescer, o grupo escolar que lhe dera as palavras, os pastos infindos que o fizeram homem sobre as próprias pernas. Era decidir que as coisas fossem guardadas lá, bem por dentro. Em um canto que talvez deixasse de ver luz por algum ou muito tempo.
Que talvez se enchesse de pó ou que se puísse, pelo esquecer de pequenos pedaços, pelo perder das bordas frágeis dos intrínsecos referenciais de sempre, de quase sempre. De tempos em tempos, sabe-se que é preciso. Abrir novos cantos por dentro e lá, ir armazenando o que decidimos tornar passado. Que ficará escuro, empoeirado, esquecido, e ainda assim lá, intocado. Pra ir, é preciso que assim fique. Amarelado, esmaecido,
mas resistente, recoberto pelo verniz do tempo, das tramas das emoções.

 

A capital e sua imensidão pegajosa. As entranhas tomadas pelo desconhecido e indistinto das muitas faces
que são nenhuma. Ninguém a abraçar e pedir a benção. Ninguém a dizer o caminho ou quais certos ou errados. Os que chegam, tão perdidos quanto. O senso de solidão como companheiro em noites nunca antes tão escuras. De certo, porque absoluto, o desenho. A mão tão sem freios e com a leveza de quem perpetua o sonho mesmo depois de só ter dureza e frio de inspiração. A penúria só aplacada pelo mundo no papel – vibrante, imprevisto, vasto e solto. Um que fazia todo sentido. E que se queria mais. Quis-se grande. E se fez. Dos quadrinhos às histórias de terror, do início. Os cavalos nunca selados pra que perdessem nunca a natureza de livre, mesma da infância. Uma boneca de pano, pra cobrir de sonho o quarto da filha pequena. Os brinquedos mágicos pra contentar o filho ingênuo. Os retratos dos rostos precisos e amados da mulher, da avó, deixados no papel depois de impressos no fundo do verde claríssimo da íris dedicando a vida a ver. Ver de tudo, ver muito e largar no papel – para o tempo, para o sempre, para o mundo.

 

E então os corpos. O abuso de cores e formas, o inusitado. Um grito. Egon Schiele e sua febre. O mesmo olhar fora de seu tempo. A alma clamando por mais. O destino dos incompreendidos, os esquecidos porque ignorados. Ou talvez só uma mansa serenidade, um calar-se em meio aos que jamais ouviram. Por simples incapacidade, essa doença insidiosa e despercebida que se traduz no criminoso contentar-se. Dos conformados, a miopia e a mediocridade se querendo passar por normal e aceitável. Como então mostrar a esses que há mais? Que os traços aparentemente incertos e falhos que não se fecham no acadêmico são e podem o que estilo nenhum foi nomeado para definir. Porque assim é a arte, abstrata em si. Porque diz a uns, e nega a outros. Porque se quer mais do que tantos podem. E não se apreende ou aprisiona, ela apenas está lá. É. Imperativa. Salta de dentro e transborda.

 

Os museus podiam lhe dar Da Vinci, Gauguin, Degas. Bailarinas, flores, mulheres e invenções incontestáveis.
Da beleza que todos alcançam. Querem. Aceitam. O mundo lhe deu Goya, Rembrandt, Van Gogh. Outros tons, outras durezas e loucuras para lidar; tentativas de vislumbrar motivações que pusessem a luz na tela daquela forma tão particular. Ou a deixassem de fora, propositadamente. Os escuros de cada um. Os vazios. Klimt, Münch; cores desesperadas, aflitas, em fogo. Quais buscas? E quais tormentos para que de suas mãos despertassem aqueles traços soltos de medo e estética tão longe e tão perto da perfeição? De eriçar a pele e incomodar o sono. Por que pode nos dizer tanto o que vem do outro assim, num momento de dor, loucura, beleza, gozo ou morte? Um que nunca vimos, nem mais existe? Por ver mais do que há a ser visto.

 

Egon Schiele foi uma descoberta perturbadora. Tinha um olhar mais que desafiador. Tinha urgência. Mais que contestação. A arte nunca foi meio. Os que nascem com ela, não escapam. Não há como, nem por que.
Nada de maldito nisso. Nem de divino. Ver mais do que há pra ser visto. Seus corpos contorcidos e expressionistas sempre foram mais. Seu grito estava ali, exposto. A sina de tentar dizer, a qualquer custo.
Os auto-retratos eram mais do que sua tentativa de ser. Talvez ele não quisesse nada. Não precisasse.
Mistérios os chamados de cada um. Naquele tempo, em qualquer outro. Há ainda seus desenhos, os traços indefinidamente abertos, as cores berrando, uma ilusão de semelhança. Está lá. O que nem a gripe espanhola
foi capaz de levar. O que nunca se saberá ao certo, ainda que biografias tentem. Mas não, acho que não era verde seu olho.

 

Esse ter o que dizer dói, esse ver demais. Anseios que desenho nenhum esgota. O papel sempre pedirá, sempre se abrirá pra que o preencham. Acenará com sua brancura e ilimitada margem para que se deixe ser tomado. Por um momento de ter o que dizer. Por um segundo de dor, loucura, beleza, gozo ou morte. Pela lembrança do pai calado mas afetivo, da mãe atenta. Dos pastos sem cercas, cavalos sem arreio. Da estrada de ferro fazendo curva no rio gelado. A cidade grande e fria e acolhedora. Da família que formou, lar que construiu, caminhos que trilhou, marcas que tornou impressas por um tempo que vai ultrapassar o seu de viver. O nunca perder de suas cores, o nunca esquecer o manuseio leve do carvão. Por sobre a pedra, por sobre o papel, por sobre a pele, a sua assinatura. Que haverá sempre o que dizer. E do papel, você grita. Os que ouvem também têm sede.

 

Gabriela Ramos Rosa

14.10.07

PERSEA AMERICANA,
ASSIM COMO EU.

Nasceu de uma semente, assim como eu.

 

Rompeu a escuridão procurando a luz, a chuva e o vento, assim como eu.

 

Teve cuidados, amor, atenção, afagos e proteção, assim como eu.

 

Ainda jovem, nos seus arroubos de infância e juventude, aprontou traquinagens, estourando pisos, canos d’água e arrebentando fios, assim como eu.

 

Enfrentou agressões, perdeu pequenos pedaços mas a vida mais lhe sorriu que o judiou, assim como eu.

 

Cresceu, buscou as alturas pra tentar olhar cada vez mais de cima e sentir o frescor
os alísios sem no entanto deixar de ter os pés fincados na terra pra resistir aos
sirocos e simuns, assim como eu.

 

Gostou da vida, se encheu de viço, se enfeitou de flores e cores pra atrair quem o fizesse fecundar e germinar as sementes, assim como eu.

 

Gerou frutos, novas sementes, novas vidas, que alimentarão os ciclos eternos enquanto durem, assim como eu.

 

Nas fotos, os primeiros frutos agradecidos do abacateiro, persea americana, que cuidamos de
plantar e cuidar em frente ao nosso estudio da Guatás. Eu, aprendendo e motivado pelo abacateiro, procuro ainda crescer, embora sabendo que ele será sempre mais alto e mais forte do que eu.

 

                                                                                                      Otoni Gali Rosa

                                                                                                      Fevereiro/2016

foto dia dos pais.jpeg

EU, FILHO E PAI E MEU FILHO E PAI.


Em 1960 desembarquei em São Paulo. Não conhecia o mar.
Por aqui fui me ajeitando, arrumando trabalho e um teto pra dormir.
Quando deu pra apartar um dinheiro pouco, desci a serra de busão pra conhecer o mar que
Santos me apresentou. Era imenso, me encantou e me assustou.

Invadido pela imensidão das águas me senti mais parte do mundo já que ele todo estava ali,
logo depois do horizonte e senti a falta do meu pai, que também não conhecia o mar mas me deu o rumo pra que chegasse até ali.

Mais um tempo se passou e mais ajeitado na vida fui buscar meus pais pra que conhecessem o mar. 
Eu os levei pro Guarujá, e lá, especialmente o velho Barão que muito gostava de água e foi quem primeiro me ensinou a nadar “cachorrinho”, que era o que sabia, nas águas do Rio Cachoeirinha, me emocionou com o seu olhar e sua expressão de garoto, de mão dadas comigo, entrando devagar, cuidando de cada passo, e saltando cuidadoso cada onda até se entregar de corpo e alma às imensas águas, as mesmas que também acariciavam tantos em tantos continentes. Por ali ficou horas, chapinhando, espargindo água, mergulhando, boiando e se se deixando levar até que o sol se fosse. Saiu das águas, já surgida a lua, emocionado e agradecido
ao mundo e ao seu Deus.

Mais um tempo se passou e também pelas mãos, com cuidado e carinho conduzi meus filhos nos primeiros passos pelo mesmo mar nas praias de Camburi.

Mais um tempo se passou e neste dia dos pais me vejo sendo conduzido pelo meu filho me oferecendo o ombro de apoio pela insegurança dos meus joelhos cambaios. Toda a história de pais e filhos e filhos e pais se apoiando pra curtirem e desafiarem juntos os mares e os mistérios da vida envolveram meus sentimentos, minhas lembranças e minha história.

 

Grato meu pai, grato meu filho.
Grato Marylene, Marcela e Ana.
Praia do Lázaro, 11 de agosto de 2019.

Foto: Marcela.

Otoni Gali Rosa
Agosto/2019

INGAZEIROS PAQUITO E MARIMBONDOS.jpg

INGAZEIROS, PAQUITO E MARIMBONDOS.

Zé Pavesi, um amigo “professor pardal” que tive em Olímpia, projetou e juntos construímos com tábuas de tamboril a nossa canoa “Dolorosa”.
 

Ficava apoitada no Rio Cachoerinha, distante cerca de 6 quilômetros da cidade.

Domingo era dia de canoar, pescar, nadar e explorar os recantos do rio em cujas margens floresciam ingazeiros.

O ingazeiro é uma árvore de copa ampla que costuma nascer à beira dos rios, seu fruto, o ingá, é de sabor singelo e doce e serve de alimento ao homem, aves e peixes. Nos seus galhos os marimbondos constroem suas casas, atraídos pela proximidade com as águas.

Descíamos e subíamos o rio, eu me revezando na popa com o Zé, pilotando o varejão e na proa, qual comandante, seguia vigilante o Paquito, meu cachorro vira-latas, mestiço terrier com fuinha e cobra d’água.

Nas monções, abriam-se as comportas do céu, as águas do rio subiam e se aproximavam dos galhos dos ingás e dos seus inquilinos marimbondos. Tínhamos que canoar com cuidado, entre galhos, alguns naufragados, e às vezes acontecia alguma invasão de território e os marimbondos partiam para o ataque, a sua melhor arma de defesa.

A nossa reação era berrar MARIMBONDOS! E nos jogarmos às águas onde eram boas as nossas chances de defesa. Assim também fazia Paquito que aprendeu rápido, após os primeiros ataques  que o deixavam com cara de um puro sangue chinês Shar Pei.

Vez ou outra costumávamos fazer uma molecagem que consistia em capturar com uma saco de aniagem, uma casa de marimbondos inteira, incluindo seus moradores. A captura consistia em uma aproximação lenta e silenciosa bem conduzida pela piloteiro a um alvo que estivesse à altura da mão. O maribondeiro tinha que ensacar rapidamente o alvo, fechar a boca do saco e amarrá-la para que nenhum marimbondo tivesse tempo de contra atacar. Caso a operação falhasse, gritava-se MARIMBONDO! E todos saltavam, mergulhavam e nadavam para o mais distante possível até que as coisas se acalmassem.

Voltando pra casa costumávamos deixar o troféu conquistado à porta de algum desafeto ou de moradores que de qualquer forma, de acordo com seus costumes, valores procedimentos mereciam alguma advertência ou castigo de acordo com nossas cabeçolas molecas.

Havia os dias plácidos, quando a bonança da tarde nos tranquilizava e apenas curtíamos o arrulho das águas, o piar dos pássaros e resolvíamos bulir com o comandante à proa. Gritávamos MARIMBONDOS! E Paquito, incontinente, saltava às águas e nadava vigorosamente em sentindo oposto ao da canoa até se convencer que havia se safado.

Paquito se foi, aqueles marimbondos também.

Mas ainda hoje, vez ou outra esse grito me ecoa, ou por um aviso interno do corpo, da mente ou da alma, ou por uma divulgação na mídia social ou de massa, ou por um amigo ou conhecido que assustado já se vê saltando da proa. Não salto de imediato como o Paquito mas em fração de segundos paro pra ouvir, ver, pensar, sentir e se o instinto não estiver bloqueado e aflorar já sei como acalmar, acreditar e cuidar ou até saltar, correr, nadar ou pedalar se preciso for.

Grato Zé, Paquito, Dolorosa, ingazeiros e marimbondos.

Otoni Gali Rosa
Agosto/2021